Conversando com Educação

Entre a estante e o esquecimento

Por Abepar  ·   ·  3 min de leitura

Nesta semana, recebi e-mails de alguns amigos que estavam se desfazendo de suas bibliotecas pessoais. A pergunta era simples: para quem doar os livros? Não soube responder. Fiquei constrangido de sugerir a reciclagem. Seria trair algo que sempre considerei sagrado.

Isto trouxe à memória o encerramento das atividades do Gabinete de Leitura Rui Barbosa, no ano passado. Naquele momento, a maior dificuldade foi decidir o destino do acervo. Construída ao longo de décadas, a biblioteca reunia um volume expressivo de obras, com temas variados, moldados pelas demandas dos associados nas décadas de 1950 e 1960, um tempo em que poucas casas possuíam estantes de livros, e comprar um exemplar não estava ao alcance de todos. As bibliotecas pessoais tinham um papel importante.

A diretoria optou por leiloar a parte mais valiosa do acervo e colocar o restante à venda por preços simbólicos — eu comprei alguns. Mas a maioria permaneceu nas prateleiras. Tentou-se doá-los às bibliotecas da cidade, sem sucesso: o volume era grande e os temas, pouco compatíveis com as demandas atuais. Sebos também recusaram, alegando excesso de doações e falta de espaço. Até hoje não sei ao certo qual foi o destino do acervo.

Biblioteca pessoal com estantes de livros

Lembrei-me também do período em que estive como Secretário Municipal de Educação. Era comum chegarem à biblioteca da Secretaria veículos carregados de livros a serem doados por famílias que estavam “limpando a casa”. Na maioria das vezes, não aceitávamos as doações, o que gerava indignação dos doadores. Mas a verdade é que muitas obras não se ajustavam mais às necessidades das escolas e não havia espaço físico para recebê-las.

As gerações atuais já não cultivam o hábito de manter bibliotecas pessoais. Seja pelo desinteresse, pela redução dos espaços nas residências ou pela sua substituição pelos livros digitais, o livro físico não ocupa mais o mesmo lugar de destaque de antes. Não desapareceu — mas tornou-se um objeto sem lugar definido.

No meu caso, a relação com os livros é afetiva. Embora tenha me desfeito de parte da minha biblioteca, ainda preservo a maioria dos livros. Cada exemplar guarda uma memória: o momento em que foi comprado, o tempo em que foi lido, o significado que teve, quem eu era naquela fase da vida. Ao retirar um livro da estante, não revisito apenas um texto, mas um pedaço da minha própria história. Desfazer-me deles seria como deixar que uma parte de mim fosse embora junto.

Estante de livros em ambiente íntimo

Por enquanto, meus livros seguem ocupando suas prateleiras. Um dia, caberá aos meus filhos decidir o que fazer com eles. Talvez enfrentem a mesma pergunta: o que fazer com livros físicos em um mundo que parece já não saber muito bem para que eles servem?

Abepar

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