
Em novo episódio da série Diálogos Abepar, gravado no dia 27 de maio, diretores e gestores das escolas Vera Cruz, Avenues e Poliedro discutiram como suas instituições vêm enfrentando a chegada da inteligência artificial às salas de aula. O encontro integra a preparação para o II Congresso Abepar, marcado para 19 de setembro.
A inteligência artificial entrou na rotina das escolas brasileiras antes que houvesse tempo para construir consenso sobre como recebê-la. É desse descompasso, e das escolhas que ele impõe a quem gere uma escola, que tratou o mais recente episódio da série Diálogos Abepar, gravado em 27 de maio. Participaram da conversa Daniel Helene, diretor pedagógico da Escola Vera Cruz; Leonardo Pena, diretor de tecnologia da Avenues São Paulo; e Breno Heleno, gerente de inteligência artificial do Poliedro Educação. A apresentação foi de Helvio Falleiros que dividiu a coordenação do encontro com Francisco Carbonari, secretário-executivo da Abepar.
O título do encontro sintetiza o espírito da conversa: “IA na escola: que perguntas fazemos, que escolhas sustentamos, que práticas construímos”. Três escolas, três percursos distintos e uma convicção comum: nenhuma resposta tecnológica resolve sozinha a tarefa pedagógica.

A discussão se inscreve na preparação do II Congresso Abepar, que acontecerá em 19 de setembro, no Colégio Santa Cruz, em São Paulo, com o tema “Educação na Era da IA: Ética, Inovação e Outros Desafios”. A novidade dos encontros preparatórios, segundo Carbonari, é a opção por dar voz aos profissionais que estão dentro das escolas associadas, em vez de buscar apenas especialistas externos.
Assista:
Daniel Helene (Vera Cruz): formação de professores em IA não é mero treinamento técnico
Para o diretor pedagógico da Escola Vera Cruz, a inteligência artificial generativa configura uma ruptura de paradigma que atinge uma escola já em crise. O sistema educacional, observou Helene, vinha sendo descrito há tempos como “industrial, lento, desigual e pouco relevante”. A IA chega justamente nesse terreno, e o efeito é multiplicador.

O Vera Cruz começou a discutir o tema no início de 2023, logo após o lançamento do ChatGPT. A decisão inicial, segundo Helene, foi estratégica: não tratar a IA como problema de fiscalização
(“o aluno está usando ou não?”), mas como questão pedagógica. “A ideia central foi criar estratégias para usar essa tecnologia a favor das aprendizagens”, afirmou. Em 2026, três anos depois, a etapa atual é a de formação da equipe e incorporação intencional e crítica da IA em alguns processos da escola.
Helene apoia-se, entre outras referências, no trabalho do pesquisador Silvio Meira para mapear as mudanças em curso: a commoditização do conhecimento, o colapso da avaliação tradicional, o risco de bolhas e vieses algorítmicos, a ameaça à identidade docente, a desigualdade digital e a opacidade da governança das grandes empresas de tecnologia. Diante desse quadro, sua posição é direta:
“Proibir ou ignorar a IA é inviável e perigoso. Precisamos aproveitar esta oportunidade para reinventar a escola e a docência.”
Daniel Helene, Escola Vera Cruz
A formação dos professores, sustentou, não pode ser confundida com treinamento técnico. Precisa ser “um processo vivo que convoque o sujeito, seus medos, dúvidas e saberes”, e não a transmissão de receitas de uso desta ou daquela ferramenta. Helene também chamou atenção para o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), que estabelece regras importantes sobre o uso de fotos e dados biométricos de crianças em modelos generativos. Práticas que parecem inocentes podem, sem que se perceba, enviar dados sensíveis sem o devido consentimento.
A fala foi encerrada com uma posição que orientou o restante do encontro: ainda não sabemos o que será um trabalho pedagógico de qualidade com IA. Por isso é decisivo compartilhar experiências e manter a pergunta aberta enquanto se investiga. “Esse processo deve ser liderado pelas escolas e pelos profissionais da educação.”
Leonardo Pena (Avenues): visão crítica, adoção cautelosa
Na Avenues São Paulo, a tecnologia faz parte do projeto pedagógico desde a fundação. A escola conta com integradores de tecnologia, profissionais que atuam ao lado de professores e alunos sem aulas fixas em grade. Todos os estudantes usam dispositivo próprio, iPad nos anos iniciais e MacBook a partir do Fundamental II. É um ambiente em que a chegada da IA ganhou dimensão imediata e, segundo Leonardo Pena, exigiu posicionamento rápido.
O ponto de partida da escola, contou, é uma premissa pouco explicitada nos debates educacionais:
“A tecnologia não é neutra. Ela influencia a forma como é utilizada.”
Leonardo Pena, Avenues São Paulo
A consequência prática é trabalhar com os alunos uma leitura crítica das ferramentas: o contexto socioeconômico em que foram desenvolvidas, as escolhas humanas que orientaram seu desenho, os vieses presentes nos dados que as treinaram. Eventos como a Semana de Cidadania Digital e a Semana de Inteligência Artificial são parte dessa estratégia.
O segundo pilar da abordagem da Avenues é a cautela. Pena observou que muitas evidências sobre o impacto da IA na aprendizagem ainda são contestadas. O próprio fenômeno do offloading cognitivo (a transferência do esforço de pensar para a máquina), antes visto apenas como problema, começa a ser estudado também em situações em que pode ser positivo, ao liberar tempo para um pensamento crítico mais profundo. O movimento, portanto, não é de recusa nem de adesão entusiasmada. “Não se trata de negar ou excluir a IA, mas de olhar criticamente para ela e definir em quais espaços faz sentido usá-la e em quais não faz.”
Outro ponto sensível, lembrou, é a aprendizagem baseada em projetos, marca pedagógica da escola. Quando o trabalho do aluno exige leitura do contexto local, experimentação e integração de saberes, fica mais difícil delegar à IA o cerne da produção. A ferramenta assume um papel auxiliar, e não preponderante.
A preocupação com proteção de dados foi um dos pontos mais enfáticos da fala. Responsável pelo comitê de LGPD na escola, Pena descreveu o que chamou de risco crescente. “Isso me tira o sono às vezes. Quanto mais ferramentas surgem, maior é o risco de inserirmos informações que não deveriam estar ali.”

Já no debate, Pena também fez um alerta contra o messianismo tecnológico. A história recente da educação, lembrou, está cheia de promessas semelhantes que não se cumpriram, como aconteceu com o movimento maker.
Breno Heleno (Poliedro): ensinar com, sobre e além da IA
Gerente de inteligência artificial do Poliedro Educação, Breno Heleno trouxe ao diálogo a perspectiva de quem trabalha simultaneamente em três frentes: o desenvolvimento de soluções, a formação de professores e o desenho curricular. Abriu sua fala com uma observação sobre o próprio momento do debate.
“Quando não temos tantas evidências, preenchemos o espaço com medo ou com mágica.”
Breno Heleno, Poliedro Educação
Por isso, segundo Heleno, prefere falar em “inteligências artificiais”, no plural. Não há uma autoridade cognitiva única em jogo, e sim modelos de linguagem, modelos preditivos, sistemas com
finalidades distintas. A IA, para ele, ultrapassa a categoria de tecnologia da informação e comunicação. Mexe na forma como produzimos e validamos conhecimento, o que coloca a escola diante de uma tarefa que é primeiro epistemológica e só depois operacional.
Seguindo as diretrizes da Unesco e a legislação nacional, o Poliedro trabalha com duas chaves, às quais Heleno acrescenta uma terceira: ensinar com IA, ensinar sobre IA e refletir sobre o mundo transformado pelas inteligências artificiais. A formação começou pelos professores. A escola desenvolveu o Cosmos, hub interno conectado aos conteúdos autorais do Poliedro, que apoia o docente em quatro frentes: planejamento, personalização (especialmente para acessibilidade e neurodivergência), construção de instrumentos avaliativos e curadoria de itens. Mais de 240 mil questões reais de vestibulares já foram qualificadas e cruzadas com critérios de acessibilidade.
Heleno também trouxe um dado que merece registro: uma revisão recente da Universidade Stanford analisou cerca de 800 estudos sobre IA na educação e encontrou evidências fortes em apenas 20 deles. Entre os usos respaldados pela pesquisa, destaca-se o da IA como copiloto, com abordagem socrática.
A frase mais comentada do encontro veio no encerramento de sua primeira intervenção, quando discutia os limites do que a tecnologia pode e não pode fazer.

O fator humano como pergunta de fundo

Na segunda parte do encontro, Francisco Carbonari propôs uma questão de outra ordem. As três escolas representadas têm visão clara e recursos para enfrentar o tema, mas a maioria das escolas brasileiras não dispõe das mesmas condições. A pandemia, lembrou, foi um choque que muitos esperavam transformador, e a escola, no fim, saiu basicamente igual. “Como vocês enxergam a inteligência artificial como possibilidade de ajudar a redefinir a escola e enfrentar essa crise de forma mais consistente?”
Helvio Falleiros acrescentou outro ângulo. “A inteligência artificial não toca num aspecto fundamental da existência humana, que é a presença, o compartilhamento da experiência e o contato humano. A escola é feita de contato, de relação.”
As respostas dos três participantes convergiram. Para Daniel Helene, a IA só será promessa de algo diferente se for vivida num processo profundamente humano. Para Leonardo Pena, é sedutora a ideia de que uma tecnologia será a solução para a crise da educação, mas raramente isso acontece. Para Breno Heleno, os alunos já estão expostos à IA fora da escola, e o letramento é uma tarefa de que a instituição não pode escapar, sempre com o fator humano como referência.
O encontro deixou três tarefas para a rede Abepar. A primeira, levantada por Helene, é manter a pergunta aberta enquanto se investiga, sem ceder à tentação das respostas prontas. A segunda, sugerida por Pena, é desenvolver critérios institucionais para decidir onde a IA faz sentido e onde não faz, em diálogo permanente com pesquisa acadêmica e proteção de dados. A terceira, formulada por Heleno, é tratar a IA não como tecnologia entre outras, mas como elemento que reconfigura a própria forma de produzir conhecimento, e que por isso convoca a escola a sustentar aquilo que nenhuma máquina substitui: o encontro entre pessoas.
A conversa entre os três será insumo direto para a programação do II Congresso Abepar, em setembro.
