
O II Congresso Internacional Abepar reuniu 650 participantes em torno do tema “Educação na Era da IA: Ética, Inovação e Outros Desafios”. O encontro, realizado em 19 de setembro no Colégio Santa Cruz, em São Paulo, marcou também os dez anos da associação, que hoje reúne 33 escolas particulares no estado de São Paulo.
O dia foi construído entre duas conferências que se completam. Na abertura, o pesquisador britânico David Buckingham, professor emérito da Universidade de Loughborough e um dos fundadores do campo da educação para a mídia, tratou do fim da informação, da mídia e do conhecimento como os conhecíamos. Sua provocação central vai além das ferramentas: em um tempo de pós-verdade, o problema da escola deixou de ser a escassez de informação e passou a ser o excesso. Buckingham tem insistido que a resposta não está em soluções técnicas nem em proibições, mas em uma educação midiática capaz de olhar para as causas políticas e econômicas da desordem informacional, incluindo o modelo de negócio das plataformas que oferecem assistência gratuita em troca de dados.

No encerramento, o americano Charles Fadel, fundador e presidente do Center for Curriculum Redesign e integrante do grupo de especialistas em IA da OCDE, fez o movimento complementar: diante desse cenário, o que ainda vale a pena aprender. Autor de Educação para a era da inteligência artificial (2024), Fadel defende que a inteligência artificial altera o quê e o como da educação, mas não torna a escola obsoleta.

Seu argumento parte de uma recusa dupla, ao pânico e à passividade, e propõe a sabedoria como objetivo duradouro da formação escolar, entendida não como ideia abstrata, mas como a combinação em ação de quatro dimensões: conhecimento, habilidades, caráter e meta-aprendizagem. A elas o autor acrescenta quatro impulsionadores sem os quais o currículo se esvazia: motivação, identidade, agência e propósito. Contra a ideia de que a máquina já sabe tudo, Fadel lembra que a IA não age com responsabilidade nem substitui julgamento, contexto, ética e propósito. O que a escola precisa formar, diz, é versatilidade.
Entre uma conferência e outra, pesquisadores brasileiros trouxeram o debate para o chão da educação nacional. Dora Kaufman dedicou sua fala a desmistificar o que a inteligência artificial é e o que não é. Jefferson Tenório abordou o racismo algorítmico, e Jussara Santos, infância e antirracismo na era digital. Patrícia Peck tratou de autoria e plágio, Maria Mello analisou o ECA Digital, Telma Pantano discutiu os efeitos do uso dessas ferramentas sobre o cérebro, Renata Cafardo examinou o algoritmo das famílias e Priscila Gonsales apresentou caminhos para além das big techs.
Partilha de Práticas
A novidade desta edição foi a Partilha de Práticas, espaço em que as próprias escolas associadas ocuparam o lugar de quem apresenta. Foram 32 trabalhos de 22 escolas da Abepar, distribuídos em salas simultâneas ao longo da manhã e da tarde, com experiências que vão da Educação Infantil ao Ensino Médio.

O conjunto revelou uma produção que já estava em curso e circulava pouco. Uma turma de segundo ano criou uma versão animada do Mágico de Oz e descobriu, na prática, que era preciso reescrever o comando dezenas de vezes até chegar perto do que havia imaginado. Um professor montou um computador mecânico de papel para ensinar como um algoritmo aprende, sem nenhuma máquina ligada. Houve turma lendo Asimov e depois construindo chatbots, e uma simulação da ONU em que uma agente de IA participou do debate como delegada, fato revelado aos alunos apenas ao final. Uma escola discutiu padrões de beleza com o quinto ano a partir das imagens que a IA gera. E houve relatos francos sobre sobrecarga e esgotamento docente, e sobre o que essas ferramentas podem ou não aliviar.
Público
Entre os 650 participantes, 36 vieram de escolas públicas. A presença de educadores da rede pública repete uma decisão tomada já na primeira edição, realizada em 2024, quando o congresso reuniu cerca de 650 participantes em torno do tema da convivência escolar.

Quatro perguntas a Maria Eduarda Sawaya, presidente da Abepar
1. O Congresso trouxe pesquisadores estrangeiros e brasileiros para falar de inteligência artificial. O que dessas falas deve permanecer no debate educacional daqui para frente?
Maria Eduarda Sawaya: O que deve permanecer é a educação midiática. E aqui a distinção importa: não se trata de educar para usar a inteligência artificial, e sim para entender como ela funciona. Sem esse entendimento não existe autonomia, existe dependência. Foi disso que David Buckingham falou na abertura, e foi para esse mesmo ponto que Charles Fadel apontou no encerramento, ao perguntar o que ainda vale a pena e aprender.
O Congresso aconteceu com pesquisadores brasileiros que trouxeram o problema para o nosso chão. Dora Kaufman desmistificando a IA, que é um trabalho necessário porque boa parte do debate é feito em cima de uma ideia equivocada do que essa tecnologia é. Jefferson Tenório falando de racismo algorítmico, Jussara Santos de infância e antirracismo na era digital. Patrícia Peck sobre autoria e plágio, Maria Mello sobre o ECA Digital, Telma Pantano sobre o que o uso dessas ferramentas faz com o cérebro, Renata Cafardo sobre o algoritmo das famílias, Priscila Gonsales lembrando que existe vida para além das big techs. O que fica, para mim, é que não dá para tratar isso como assunto de tecnologia educacional. É assunto de projeto pedagógico.
2. A Partilha de Práticas foi a novidade desta edição: mais de 20 escolas associadas apresentaram experiências que já estão em curso. Por que colocar as próprias escolas no palco?
Maria Eduarda Sawaya: Porque as escolas da Abepar já estão usando a IA seja com seus alunos, seja nas tarefas dos professores. Essa é a resposta simples. Quando começamos a organizar o congresso, ficou claro que havia muita coisa acontecendo dentro das nossas escolas que ninguém conhecia direito. Professores testando, errando, refazendo. Abrimos a inscrição de projetos e chegamos a 33 apresentações em 17 salas simultâneas. Foi mais do que esperávamos.
E a variedade do que apareceu diz muito e foi muito interessante. Teve um segundo ano criando uma versão animada do Mágico de Oz e descobrindo, na prática, que precisa reescrever o comando dez vezes até chegar perto do que imaginou. Teve um professor montando um computador mecânico de papel para ensinar como um algoritmo aprende, sem nenhuma máquina ligada. Teve uma turma lendo Asimov e depois construindo chatbots.
Teve uma simulação da ONU em que uma agente de IA participou do debate como delegada e os alunos só souberam disso no final. Teve escola discutindo padrões de beleza com o quinto ano a partir das imagens que a IA gera. E tiveram professores falando abertamente de sobrecarga e de esgotamento, e do que essas ferramentas podem tirar das costas deles.
Nada disso teria vindo de uma palestra. Vem de quem está em sala de aula. Nosso papel foi criar o espaço e sair da frente.
3. Entre os 650 participantes havia representantes de 36 escolas públicas. O que essa presença conjunta significa quando o tema é IA?
Maria Eduarda Sawaya: Os alunos que chegam à escola com o celular cheio de conteúdo gerado por máquina são os mesmos, na rede pública e na rede particular. A pressão sobre o professor é a mesma. As perguntas sobre autoria, sobre o que é pesquisa e o que é atalho, sobre o que fazer com um texto que o aluno não escreveu, são as mesmas.
O que muda são as condições. E é justamente por isso que a conversa não pode acontecer só entre escolas parecidas entre si. Quando isso acontece, a gente confunde a nossa realidade com a realidade da educação brasileira, e essa confusão custa caro.
Não fomos ali levar respostas para ninguém. Fomos dividir um dia de trabalho. Foi assim no primeiro congresso e foi assim agora, e é uma decisão que a Abepar toma conscientemente desde o começo.
4. Dez anos de Abepar, dois congressos. O que a associação leva deste 19 de setembro para os próximos anos?
Maria Eduarda Sawaya: A Partilha de Práticas nasceu como experiência desta edição e me parece que virou algo maior do que isso. Escolas que competem entre si no dia a dia decidiram contar o que estão fazendo, inclusive o que não deu certo. Isso não é trivial, e é exatamente o que uma associação em rede deveria produzir. Sem dúvida, levaremos esse formato para os próximos congressos.
Levamos também uma agenda que não se esgota. A discussão sobre inteligência artificial vai nos ocupar pelos próximos anos, e ela muda de forma a cada semestre. Os Diálogos Abepar seguem, e seguem porque o congresso não é um ponto de chegada.
E levamos uma confirmação. Quando começamos, há dez anos, a ideia era simples: escolas que pensam sozinhas pensam menos. Sábado, com 650 pessoas no Colégio Santa Cruz, isso ficou bem evidente.
