Blog da Vila
Por Sônia Barreira – Diretora da Vila das Infâncias
Neste ano a Vila está completando 45 anos de existência. Nosso projeto pedagógico e educacional está maduro, consistente e bastante testado, no entanto, mudanças na realidade implicam novas demandas para as escolas e, por isso, seguimos em transformação permanente, num contexto de estabilidade e experiência acumulada.
Ainda no mês de abril, daremos início às comemorações deste sólido percurso, as quais terão seu ápice no evento mais esperado: a festa de aniversário. Ela será realizada para toda a comunidade no dia 31 de maio. Estão todos convidados para a celebração desta bonita história que estamos escrevendo há tanto tempo e por muitas mãos!
Mas, pensando bem, escola tem dia de aniversário? E se assim for, em que dia a Vila nasceu? Sinceramente, eu não sei. Pode ter sido gestada lá em sua origem remota, a Escola Criarte, que existiu desde a década de 70 e onde todas as sócias fundadoras trabalhavam! Pode ser no dia em que um pequeno grupo decidiu fazer uma nova escola! Pode ser também no primeiro dia de aula! Ou quando foi batizada e recebeu seu nome! Todos esses marcos são válidos. Mas hoje eu gostaria de lembrar um outro marco relevante para todos nós: quando recebemos nossa primeira estudante atípica. Foi em 1993 e aconteceu graças à Vania Marincek, nossa querida colega que já nos deixou. Foi ela quem nos animou a enfrentar o desafio e nos garantiu que conseguiríamos! Foi por causa dela que nos aventuramos com coragem, mas sem conhecimento, a enfrentar o grande desafio de construir uma escola inclusiva.
De lá pra cá, muita água passou embaixo da ponte. Cometemos inúmeros erros, mas também muitos acertos. No balanço, temos muito o que comemorar, porque, em todos esses anos, aprendemos bastante.
Quando começamos, ansiávamos por um especialista que pudesse nos assessorar, nos ensinar como incluir estudantes com necessidades desconhecidas e nem sempre evidentes. Mais tarde, entendemos que o que inicialmente nos parecia tão diferente, com o tempo, aprendemos que se tratava da diversidade, uma característica intrínseca ao ser humano, presente em todas as salas de aula. Não se dando apenas em razão de um diagnóstico ou laudo, mas de uma expressão natural das diferentes formas de aprender. As diferenças fazem parte da essência da aprendizagem, pois cada estudante possui sua própria maneira de aprender, com ritmos, tempos e necessidades singulares.
Entendemos, progressivamente, que, no interior da escola, os especialistas em educação escolar somos nós, professores. Mas, mais importante que isso, foi constatar ano a ano que quem mais poderia nos ajudar eram os próprios estudantes atípicos que chegavam à nossa escola. Para tanto, deveríamos aprender a ouvi-los com atenção. Julia, Pedro, Vinicius, Manoela, Francisco, Julio, Livia, Patricia, Murilo e tantos outros foram nossos professores! Essa foi a primeira grande conquista.
A segunda, que hoje parece óbvia, mas que foi construída pela experiência, é que todos podem aprender. Realmente, não é o laudo específico nem a restrição real que nos dão as pistas mais importantes, mas sim a potência de cada estudante. Essa é a mina de ouro: é lá que devemos buscar a base para a construção das situações de aprendizagem e o desenvolvimento de cada um.
Neste sentido, saber que cada criança tem suas potencialidades e conhecimentos prévios, que precisam ser considerados para o planejamento – premissa do construtivismo que naquele momento não aplicamos imediatamente com todos os estudantes, mas hoje sim – foi determinante para avançarmos! Hoje sabemos que temos de conhecê-los individualmente e muito bem para poder planejar boas experiências, que promovam aprendizado, desenvolvimento e bem-estar. Portanto, nossa terceira aprendizagem foi entender que é preciso olhar o sujeito pelo viés das possibilidades e não das limitações. Saber o que já sabem, o que já viveram e o que pensam sobre o objeto do conhecimento e, a partir daí, pensarmos em como evoluir.
Temos percorrido uma trajetória desafiadora, mas bem sucedida também, no sentido de construir uma escola inclusiva. No entanto, agora queremos mais, queremos que toda a nossa comunidade esteja comprometida com essa ideia. Temos a convicção de que nossa sociedade será melhor e mais justa quando as crianças e jovens que educamos forem igualmente envolvidos com a ideia de que a escola deve ser para todos e todas!
Foi por isso que vivemos com muito orgulho a experiência da última quinta-feira, quando recebemos Mariana Rosa – mestranda na faculdade de Educação da USP, fundadora do Instituto Cáue, atualmente conselheira da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, consultora da UNESCO e de redes de ensino e educadora popular na perspectiva anticapacitista e inclusiva – para uma palestra oferecida às nossas famílias e educadores, com a casa cheia. O nome da palestra – “Juntos e Justos: a escola que queremos para todas as crianças” – expressou nosso desejo de fazer uma convocatória a toda a comunidade escolar para essa reflexão fundamental.
Não me atrevo a resumir a fala brilhante da nossa convidada. Vocês poderão assistir ao vídeo caso tenham perdido a oportunidade. Arrisco-me apenas a comentar um conceito que mexeu com todos nós.
Mariana denunciou o processo perverso de estabelecimento de uma dita normalidade, que define, de forma arbitrária, superficial e insensível, quem somos nós e quem são os outros. Quem fica para dentro e quem fica para fora. E complementou com uma ideia ainda mais profunda: a deficiência não está no corpo, pois não mora no sujeito, ela apenas se manifesta na experiência da exclusão. Quando a pessoa cega não tem acesso à sua linguagem ou aos outros sentidos para acessar a realidade que se coloca; quando o cadeirante encontra uma calçada esburacada; quando a pessoa surda não tem intérprete de libras; e, no nosso caso, quando o estudante não encontra o desafio adequado a ele, então a experiência da exclusão é vivida.
Essa ideia calou fundo em todos nós que a ouvíamos. Reconhecendo nossas limitações, nos demos conta de que ainda temos uma longa jornada a percorrer. Nossas atenções se voltaram para esta questão: como reconhecer as barreiras que causam a experiência da exclusão?
Nesses 45 anos de Escola da Vila, e 32 de busca para a construção de uma escola inclusiva, sabemos que temos muito a comemorar, mas sabemos também que precisamos avançar ainda mais. E seguimos construindo esse avanço.
Convidamos todos vocês a se juntarem a nós para pensarmos juntos numa escola mais justa!