Diálogos Abepar: três experiências com IA abrem a série de encontros rumo ao II Congresso

Em encontro virtual da série Diálogos Abepar, educadoras dos colégios Pentágono, Luiz de Queiroz e Magno compartilharam práticas, dilemas e princípios pedagógicos que orientam o uso da IA em sala de aula.

A Abepar realizou, na noite de 4 de maio, a primeira edição de 2026 da série Diálogos Abepar, dedicada ao tema da inteligência artificial na educação básica. O encontro reuniu três educadoras de escolas associadas para um debate sem academicismos: em vez de teoria ou especialistas externos, a proposta foi ouvir relatos de quem está vivendo a IA no dia a dia das instituições. 

Participaram Patrícia Cândido, diretora do Centro de Desenvolvimento do Colégio Pentágono; Renata Sartini, coordenadora de tecnologia educacional e inovação do Colégio Luiz de Queiroz (CLQ), de Piracicaba; e Gisele Silva, integrante do comitê de inovação do Colégio Magno e professora de língua espanhola.

Francisco Carbonari, secretário executivo da Abepar, e Helvio Falleiros, responsável pela comunicação da Associação, coordenaram o encontro, que funcionou como um aquecimento para o II Congresso Abepar, que acontecerá em 19 de setembro no Colégio Santa Cruz, em São Paulo, sob o tema “Educação na Era da IA: Ética, Inovação e Outros Desafios” — evento que coincide com o aniversário de dez anos da associação.

Convite às escolas associadas

 

Em mensagem em vídeo gravada para a abertura, a presidente da Abepar, Maria Eduarda Sawaya, fez questão de reforçar o caráter colaborativo da próxima edição do Congresso. Ela anunciou que o evento de setembro contará com a apresentação de trabalhos produzidos pelas próprias escolas associadas, organizados por uma comissão de curadoria pedagógica.

“Fica aqui um convite para que todos vocês inscrevam aquilo que estão fazendo nas suas escolas — os desafios, as boas práticas — para que isso seja compartilhado no congresso. As escolas podem inscrever mais de um trabalho.” — Maria Eduarda Sawaya, presidente da Abepar

A presidente destacou que o Congresso será, portanto, também um espaço de partilha de práticas, somando-se às provocações dos painelistas convidados.

A pergunta que move o debate

Ao abrir a discussão, Francisco Carbonari procurou recolocar os termos do problema. Para o secretário executivo da Abepar, a inteligência artificial deixou de ser uma promessa e se tornou prática — entrou no currículo, nas aulas, nas pesquisas e nas relações entre professores e estudantes. Diante disso, defendeu, a escola precisa repensar seu papel e talvez deslocar o foco da ferramenta para a aprendizagem.

Citando alertas da OCDE e da UNESCO, Carbonari lembrou que o desafio contemporâneo não é o acesso à informação, mas a capacidade de pensar criticamente em um mundo cheio de respostas prontas. “A questão não é mais se devemos usar inteligência artificial, mas como garantir que, ao usá-la, não deixemos de formar aquilo que nos torna humanos”, afirmou. Para ele, o debate de fundo não é sobre tecnologia, mas sobre o que significa aprender em um mundo onde pensar deixou de ser obrigatório.

Patrícia Cândido (Colégio Pentágono): a pedagogia antes da ferramenta

 

A primeira a apresentar foi Patrícia Cândido, do Colégio Pentágono, que propôs uma pergunta como fio condutor de toda a sua exposição: que pensamento a escola está cultivando para proteger e ampliar a aprendizagem dos estudantes? Para ela, a IA não é apenas mais uma ferramenta, mas uma força que obriga a escola a explicitar suas escolhas curriculares antes de decidir o que vai ou não usar em sala de aula. A partir dessa pergunta, o Pentágono organizou cinco frentes de trabalho — representadas em um pentágono — que articulam resolução colaborativa de problemas, pensamento como precursor da aprendizagem, papel do registro, pensamento criativo e cultura digital, midiática e IA.

Patrícia ancorou sua fala em referências como os dados do PISA — que mostram, no Brasil, 54,3% dos estudantes abaixo do nível básico em pensamento criativo — e no ciclo de resolução de problemas proposto por Robert Sternberg. Defendeu que a BNCC Computação seja tratada de forma transversal, articulando pensamento computacional, mundo digital e cultura digital ao longo de toda a escolaridade. A síntese de sua provocação ficou clara: se um aluno entrega uma tarefa feita inteiramente pela IA, isso é sinal de que a tarefa proposta pela escola foi simples demais para o que ele hoje consegue obter — o problema, portanto, é metodológico antes de ser tecnológico.

Renata Sartini (Colégio Luiz de Queiroz): pilares, visão e políticas de uso

 

Em seguida, Renata Sartini apresentou a trajetória institucional do Colégio Luiz de Queiroz (CLQ), de Piracicaba, na construção de uma política consistente para o uso da IA. Sua exposição se organizou em torno de quatro eixos — pilares, visão, estratégias e políticas — que sustentam uma diretriz clara: o desafio não é técnico, é pedagógico. Os pilares incluem cidadania digital, internet segura e um código de conduta formal; a visão coloca o aluno no centro e a tecnologia como apoio à aprendizagem, com forte ênfase na curadoria pedagógica e na intencionalidade.

Como escola de referência Google, o CLQ optou por concentrar o uso institucional em uma ou duas ferramentas — entre elas o NotebookLM —, garantindo segurança, ética e foco. Renata destacou que o letramento em IA é hoje uma extensão indispensável da educação midiática e que o colégio está acrescentando aos seus documentos institucionais um adendo sobre o uso responsável e ético da tecnologia. Os professores, segundo pesquisa interna, ainda usam a IA de forma não diária, sobretudo para ganhar tempo na organização de materiais — ganho que, defende, deve se reverter em mais escuta individual ao aluno.

Gisele Silva (Colégio Magno): a sala de aula como laboratório

 

Encerrando o ciclo de apresentações, Gisele Silva trouxe a perspectiva de quem está diretamente em sala de aula. Professora de língua espanhola e integrante do comitê de inovação do Colégio Magno, ela narrou um episódio de 2024 que se tornou marco em sua prática: ao receber de alunos um trabalho com informações que não constavam em nenhuma fonte conhecida, descobriu que tudo havia sido produzido com IA generativa. Em vez de punir, acolheu — e transformou aquilo em projeto de investigação sobre como a IA gera respostas, como a formulação do prompt afeta o resultado e por que a ferramenta erra.

Gisele defendeu que não é possível discutir IA sem educação midiática e que o professor precisa formar nos alunos um olhar criterioso desde cedo. Apontou também o desafio concreto de conciliar pensamento crítico e preparação para o vestibular, e descreveu como tem usado o NotebookLM para que os próprios estudantes construam fontes confiáveis de estudo. Sua escola tem apostado em uma abordagem orgânica e experimental, com foco em quem quer caminhar — “quem quer, vem; quem não quer, a gente não vai suar a camisa” —, confiando que o engajamento dos professores entusiasmados acaba contagiando os demais.

Convergências do debate

Apesar de partirem de lugares distintos — formação de equipes, política institucional e prática de sala de aula —, as três convidadas convergiram em pontos centrais. Há consenso de que a pedagogia antecede a tecnologia, de que a IA exige formação continuada do corpo docente e de que o aluno a ser formado é, antes de tudo, um ser humano capaz de foco, escuta, colaboração e pensamento crítico. As três também reconheceram que existe, sim, alguma resistência ou insegurança entre professores, mas viram nesse cenário uma oportunidade de profissionalização docente, em diálogo com áreas como medicina e arquitetura, em que a atualização tecnológica é parte natural da carreira.

Próximos passos

A série Diálogos Abepar terá continuidade em 29 de maio, com novo encontro também dedicado ao tema da inteligência artificial, reunindo outras escolas associadas. A iniciativa funciona como movimento de aquecimento para o II Congresso Abepar, marcado para 19 de setembro no Colégio Santa Cruz, em São Paulo, sob o tema “Educação na Era da IA: Ética, Inovação e Outros Desafios”. As escolas associadas estão convidadas tanto a participar dos próximos diálogos quanto a inscrever trabalhos para apresentação no Congresso, conforme convocação feita pela presidente Maria Eduarda Sawaya.

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Diálogos Abepar é uma iniciativa da Associação Brasileira de Escolas Particulares (Abepar), com coordenação de Francisco Carbonari (secretário executivo) e Helvio Falleiros (comunicação e coordenação do projeto).

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