
A Escola da Vila, associada à Abepar, publicou o texto “Ensinar escrita de prompts na educação básica?”, assinado por Helena Mendonça, a partir de reflexões geradas durante uma viagem pedagógica ao Uruguai e à Argentina. O texto integra a série Educação Digital em Tempos de IA e problematiza uma premissa comum nos materiais de formação docente sobre inteligência artificial: a de que aprender a escrever bons prompts equivale a ter controle sobre os sistemas de IA.
A autora aponta três razões pelas quais essa abordagem é insuficiente. A primeira é a opacidade algorítmica: o usuário nunca tem acesso real ao que determina as respostas da IA — temperatura, dados de treinamento, filtros de conteúdo e versões do modelo funcionam de forma não transparente. A segunda é que as decisões sobre as plataformas estão fora do alcance do usuário: empresas alteram políticas, capacidades e preços de forma unilateral, tornando o controle individual sempre contingente e revogável. A terceira é a instabilidade dos próprios modelos: os LLMs mudam de comportamento entre versões, às vezes sem documentação, o que torna o ensino de prompts como habilidade estável algo que se torna obsoleto por design.
Diante disso, o texto propõe um deslocamento do objeto de ensino: em vez de “como obter resultados”, ensinar “como esses sistemas constroem sentido”. O prompt deixa de ser uma técnica e passa a ser um dispositivo de observação — uma entrada para compreender opacidade, enviesamentos, silêncios e os limites estruturais do controle individual.
Helena Mendonça elenca ainda aspectos essenciais a considerar no ensino de prompts: a necessidade de nomear explicitamente os enviesamentos presentes nos dados de treinamento; a assimetria para estudantes brasileiros, já que os modelos foram majoritariamente treinados em inglês e em perspectivas do Norte Global; e o risco de individualizar um problema estrutural, reforçando a lógica de responsabilização do usuário em vez de promover reflexão coletiva sobre regulação, soberania de dados e modelos abertos.
A autora conclui propondo que o objeto de ensino seja reformulado como “interagir criticamente com sistemas opacos de linguagem” — o que inclui escrever prompts, mas também interpretar respostas, identificar ausências, questionar fontes de enviesamento e reconhecer os limites do controle individual. Para ela, a didática da educação digital precisa ser tratada como campo de investigação permanente, e não como conjunto de boas práticas a replicar.
Leia o texto completo no site da Escola da Vila.
